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Fiquei mais velha e com o passar dos anos, vem o entendimento de que certos sentimentos não devem ser guardados.
Eu devo dizer que fui até São Paulo, saindo do Rio de Janeiro, para assistir ao Live Viewing da banda japonesa L’Arc~en~Ciel no UCI Jardim Sul, no último sábado (19/11).
Devo confessar que quando vi a noticia que o live comemorativo de 20 anos da banda L’Arc~en~Ciel, que venho ouvindo há cerca de uns idos 13 anos, seria exibido em terras brasileira, pareceu-me tão empolgante... E, juntamente com a data na qual seria exibida-dia do meu aniversário- pareceu-me uma notícia tão maravilhosa que não pude hesitar em associá-la a um grande presente de aniversário!! Além do mais, assomado com o fato de que tal evento poderia ser tomado como um bom indício de que provavelmente o Brasil entraria na rota dos shows da World Tour que o L’Arc~en~Ciel fará ano que vem, achei que deveria estar lá para apoiar todo esse movimento favorável.
Ledo engano, digo prontamente.
Em frisson, corri para comprar o ingresso pela internet. Escolhi com cuidado e carinho o lugar, H11 (H pelo nome do Hyde, vocalista da banda e 11 por ser novembro), tomando o cuidado para que pudesse ficar em uma poltrona que desse para ver bem a tela. Além disso, não contestei o preço de quase 50 reais pela entrada, afinal, não era sempre que um Live Viewing acontecia por aqui. E, naquele momento, não dava muita importância para meu dinheiro. O que é bem errado, agora sei.
Bom, também providenciei minha estadia e as passagens aéreas. E, quando tudo esteve como que pronto, resolvi apenas esperar ansiosa pela data. Tanto esperei que, em determinado momento, ela se sobrepôs ao fato de ser também meu aniversário. Coloquei o L’Arc~en~Ciel por um tempo acima de mim mesma!! Sei que fiz muito muito mal.
Mas o decorrer da espera pareceu-me mesmo como que ir do Rio para São Paulo por uma sessão de cinema fosse algo maravilhoso. Que mesmo sendo o final de semana do meu aniversário, ainda estando longe e sozinha em um outro estado, um presente cheio de amor enviado por alguém especial estava sendo-me dado. Quem sabe não seria uma grande prova de amor do meu grande e eterno amado Hyde em pessoa? Sim, aquilo tudo era porque estávamos conectados de alguma forma cósmica por um sentimento muito grande e que poucos se quer poderiam entender...
Eu era uma fã cega.
Bom, juntamente com outros fãs cegos, ou um fã cego, excitei-me de todas as formas possíveis seguindo as entrelinhas das mensagens em minhas redes sociais, afinal, estávamos todos conectados por um mesmo sonho.
Sendo assim, a manhã do dia 18 ainda guardava a maravilhosa excitação que “algo especial acontecerá no dia 19” pelo simples fato de ser o live do L’Arc~en~Ciel e, em menor grau, por ser meu aniversário também.
Talvez toda a história dos tickets VIPs esgotados para os shows da World Tour em Londres e Paris já prenunciassem que nada demais aconteceria no dia 19. Porém, o amor é cego e a razão inexistente para aqueles que têm fé, como eu.
E 18 foi um dia cansativo e corrido. Arrumei com mesmo carinho e amor minhas vestimentas, malas, utensílios. Foi um preparativo longo para uma viagem especial. Seria como a viagem de alguém que vai ao encontro do amado. Acho que no meu íntimo, acreditava que Hyde fosse saltar da tela e sair comigo para algum date e quem sabe uma noite de amor. Talvez em algum momento ele virasse para mim e me dissesse que me amava de verdade, na realidade, e que tinha vindo de tão longe porque era meu aniversário. Isso certamente me faria entender que realmente sou especial para ele e não apenas índice de popularidade.
E por que tanta raiva, Viiii? É lógico que você, assim como qualquer outra fã perdida por aí em meio a tantos fakes nas diversas redes sociais mundo afora, não passa de índice de popularidade. Ou neta, em bom japonês. São materiais para coleta de informação sobre como vai indo ou é visto o trabalho de determinado artista. Olheiros coletam suas informações, opiniões, postagens nas redes e dados estatísticos são montados para saberem onde promoção, divulgação, enfoque podem melhorar. Não pense que trabalha com estes artistas ou para eles, na verdade eles apenas sugam o que querem, mas sem nenhuma relação direta com o fã.
Bom, voltando ao live viewing.
Manhã do dia 19, depois de deixar uma mensagem apaixonada no site hydeist, o fã clube dedicado ao Hyde, vocalista do L’Arc~en~Ciel, peguei o avião em direção à São Paulo.
Ahhh, como é bom voar. Ver o Rio do alto faz tudo parecer tão calmo na cidade... as praias parecem tão pequeninas com contornos tão arredondados. Mergulhei nas nuvens e fiquei extasiada com o Rio visto de cima. Meu voo saiu do Santos Drumont e a primeira vez que viajei de avião foi justamente de lá. Na minha cabeça, durante anos, a lembrança que tinha de viagem de avião era aquela imagem das praias vistas do alto dos céus. Posso dizer que resgatei uma bela imagem da minha infância no dia 19. Ahhhh, só aquilo já era um presentão de aniversário, pensava eu comigo mesma. Inconscientemente, já me preparava para a frustração que se seguiria.
Pousei. Troquei mensagens no celular. Tomei café. Vi o Sérgio Malandro no aeroporto. Informação desnecessária, mas que talvez fosse também um mau agouro prenunciando o que se sucederia.
Eu certamente não deveria estar lá.
Tomando cuidado com a violência urbana, cheguei em segurança no Hostel que fiquei hospedada. Ele era na Liberdade. Estaria perto de algum rápido turismo gastronômico e cultural asiático, mas longe do cinema em si.
Alguém das minhas redes sociais tentava marcar encontro comigo. Essa pessoa também tinha ido do Rio para São Paulo, supostamente. Primeiro, ela estava em um karaokê, sem saber qual era o nome. Depois foi com a “galera” para algum outro lugar na Liberdade e então, enquanto eu degustava a comida asiática (de verdade), ela e a “galera” estavam no metrô São Joaquim indo para o show.
Devo confessar que pensei seriamente que uma “galera” significava pagar um pouco menos no táxi de ida e volta.
Empecilhos, geralmente, me fazem refletir sobre a situação. A Liberdade é tranquila e se duas pessoas realmente quisessem se encontrar, elas o fariam. Impossibilidade, desencontro, mudança de planos e os gastos astronômicos me diziam que eu realmente não deveria estar lá.
Cadê meu presente de aniversário, pensava enquanto caminhava no frio, enrolada em casacos e cachecol pelas ruas da Liberdade em um matar tempo disfarçado de turismo empolgante.
Se era um presente vindo do estrangeiro, certamente era grego.
Se fosse um animal, não era um panda, mas um elefante branco.
Se fosse um gato, não era apenas um, mas um saco de gatos.
Se era um monstro, certamente era um troll.
Essa era a irônia e sarcasmo da situação.
Cheguei ao hostel muito triste de estar me sentindo daquele jeito no meu aniversário. Aquela sensação de quase humilhação, não condizia com uma data especial. Se era para ser um presente, por que não estava feliz? Nesta data, normalmente, sou mimada por pessoas queridas, ganho presentes, ouço seus desejos e congratulações que, para mim, são como bênçãos que me protegerão durante o próximo ano, e fico feliz sentindo o carinho e calor humanos das pessoas que me rodeiam.
São Paulo era frio e cheguei a questionar se deveria gastar mais 100 reais, além dos 50 x 100 que já havia gasto com os tickets, ingressos etc.
“Se alguém me perguntar como foi, digo que foi ótimo, pronto!”, inventava no quarto a mentira para encobrir o fiasco do fiasco.
“Mas, se veio até aqui, tem que colocar um ponto final nisso”, minha voz interior me dizia, impulsionando-me enquanto escolhia o que vestir.
Já, bem tarde, faltando 30 mins para o início da sessão, resolvi pegar um táxi e ir da Liberdade até o Morumbi.
Achando que chegaria lá pelo meio da sessão, na entrada do cinema alguém me perguntou se eu ia para o show do L’Arc~en~Ciel. “Como ele sabe? Por acaso está escrito na minha cara? Nas minhas roupas?”, pensei com meus botões. “Deve estar fazendo propaganda aí fora, isso sim”, pensei com meus botões.
Segundo ele, a sessão havia começado há pouco. Mas não havia, soube ao entrar no cinema.
Procurei minha fileira e um engraçadinho se aconchegava em meu lugar. Perguntei alto qual era o H11 e o H12 se pronunciou, como que dizendo que não era ele quem estava irregular. O garoto furão se encolheu no banco e fez cara de coitado. Olhei para trás para conferir a tela: o lugar estava localizado bem no meio. Olhei para a última cadeira vazia da fileira e pensei em tudo o que gastei, em quando marquei o lugar com carinho no site do ingresso.com.br e em como prezo um bom lugar no cinema. Fiz um gesto com a cabeça que dizia “Lamento, esse lugar é meu. Sai”. E o garoto prontamente pulou para seu lugar de verdade.
Engraçado.
Sentei no meu lugar e, um pouco mais animada, pensei em twittar um pouco. A falha de conexão me salvou de colocar toda minha coerência a perder.
Chegar ao cinema tarde e constatar que a sessão ainda não tinha começado não era um sinal de sorte e estava longe de amenizar todo o transtorno e gastos daquela viagem.
Neste momento, qualquer esperança de que algo “especial acontecerá no dia 19” já havia se dissipado. Ali estávamos eu, a tela de cinema, o fanboy H12 fake do meu lado e o show que estava a começar.
O L’Arc~en~Ciel é uma grande banda. Não estou colocando em questão aqui sua qualidade sonora.
A primeira parte do show, referente ao live ocorrido em maio no Ajinomoto Stadium estava muito bonita de ser vista. Achei que o diretor de fotografia muito inspirado nesta primeira parte. Havia imagens realmente lindas. A qualidade da imagem no cinema e a experiência de ver um show na tela grande certamente é muito melhor do que assisti-lo pela tela do computador. A alta definição, a qualidade do som são fatores que dão vida e acrescentam muito ao divertimento.
Os dois dias do show se passaram embaixo de chuva. O fanboy do meu lado fez o favor de lembrar-me muito oportunamente um dito do
Hyde sobre a chuva durante seu MC ... “Hoje a chuva também é um efeito especial só para que o arco-íris (L’Arc~en~Ciel) possa aparecer no final” . Naquele momento, eu refleti muito sobre aquelas palavras. Senti-me como um daqueles fãs lá no Nihon embaixo de tremenda chuva. Eles também deviam estar se perguntando se valia a pena estar lá embaixo de chuva só porque admiram aquela banda, porque tinham o ticket e queriam comemorar juntos, de forma divertida, ouvindo boa música, os 20 anos de carreira do L’Arc~en~Ciel. Contudo, como uma boa justificativa de estarem lá, eles ainda tinham o fato daquele ser um show beneficente no qual toda a renda seria revertida em fundo para a Cruz Vermelha em auxílio às vítimas do tsunami que ocorreu no Nihon no início do ano. O mesmo não acontecia naquela sessão de cinema. Eu tinha sido impulsionada até ali por amor, certamente. Sentia-me embaixo de tremenda chuva. E as palavras daquele vocalista me diziam que se a chuva era um efeito especial proposital, para ele pouco importava que seus fãs estivessem encharcados embaixo de chuva se isso fizesse com que o L’Arc~en~Ciel parecesse glorioso no final. Fãs na chuva certamente mostram como aqueles milhares amam tanto que ficam felizes em estar lá, mesmo embaixo de chuva. Talvez na cabeça do hyde, amar em meio a sacrifícios é sinal de um amor maior.
Quando eu comecei a enxergar as coisas por esse prisma?
Bom, a seleção de músicas também estava ótima. O L’Arc~en~Ciel é composto por quatro artistas muito talentosos.
O fanboy H12, ao meu lado, já nas primeiras firulas do hyde, avisava: “Vocês sabem que hoje qualquer gesto, beijo dele vai ser pra mim, não é?”. Em princípio, eu sorri. Ri do yaoi da cena. Ri da irreverência, mas no decorrer da sessão, quando seus suspiros e frases sem coração que pareciam lidas de um roteiro começaram a se avolumar, vi nele quão patética eu mesma devia soar dizendo aquelas coisas e toda aquela situação pareceu-me ainda mais deslocada e inapropriada.
Afinal, o que eu estava fazendo ali?
Enquanto os grandes hits tocavam, eu ia cantando junto e refletindo sobre as letras, os gestos do Hyde e algo ia se tecendo em minha cabeça.
Em algum momento, o fanboy H12 me perguntou se eu já havia assistido aquele show, tocando em outro ponto crucial daquilo tudo.
O show estava disponível para quem quisesse assisti-lo na internet!!
Apaixonados são idiotas, eis mais uma máxima!!
Eu tenho o show aqui no meu computador, inclusive. Então para quê ir tão longe, para quê gastar mais de 500 reais em duas horas em um cinema?????
Logicamente, eu esperava e acreditava piamente que o hyde sairia da tela para encontrar comigo. Ou que eu esbarraria com ele por alguma esquina da Liberdade e que ele me convidaria para irmos ao karaokê ou que, quem sabe, ele saísse do meu armário no hostel!!
Eu respondi ao fanboy H12 que não havia assistido o show em casa porque o guardara para aquele momento.
Antes do show terminar, hyde fez seu MC sem legendas. Mais uma vez me senti embaixo da chuva torrencial que não caía apenas no Ajinomoto Stadium, mas na minha cabeça também. Mais uma vez a sensação de ter sido lograda. E, enquanto hyde agradecia a todo
mundo, mesmo as pessoas que estavam longe e não tinham podido ir até o show, o fanboy H12 tentava traduzir simultaneamente suas palavras. No final, eu até achei bem engraçada a versão que ele falava. Ms o fato era que eu não me sentia nem um pouco agradecida por ter ido de longe para assisti-los.
Em outras circunstâncias, eu teria adorado o live viewing. Se eu morasse ali pelas redondezas, certamente eu teria adorado ir no live viewing. Se não fosse meu aniversário, talvez eu tivesse adorado o live viewing. Se eu não tivesse feito tantas escolhas erradas, talvez eu tivesse adorado o live viewing.
Mas eu não adorei o live viewing. Na minha situação, eu ganharia mais assistindo o live que eu tinha aqui no computador. Teria economizado meu dinheirinho e se quisesse um presente, poderia comprar algo que gostasse e me dado.
Não digo essas coisas pelo dinheiro em si, mas certamente esquecer o quanto seu dinheiro é precioso é esquecer-se de si mesma. O meu dinheiro vem de muito trabalho e dedicação e não é para ser gasto sem pensar por qualquer coisa. Quando eu não dou valor ao dinheiro que ganho de forma honesta, outros poderão estar dando-lhe valor de forma desonesta.
No final, quando acontece a percepção clara de quanto foi gasto em vão, inevitavelmente acabo por me sentir explorada, usada e enganada.
É lógico que sou adulta e é um mundo de escolhas. Assumo minha idiotice em confiar demais.
Existia certamente o desejo genuíno de apoiar a banda que gosto, o cantor que sempre amei, o homem por trás do cantor e embarcar em um sonho de forma desmedida.
Talvez o L’Arc~en~Ciel faça realmente um show no Brasil, se o resultado do live viewing for satisfatório e o negócio parecer lucrativo. Certamente será tão caro quanto os shows no Japão. Se eu tiver dinheiro, eu poderei ir assisti-lo. Se eu tiver muito dinheiro, eu conseguirei comprar o ticket VIP que me dará privilégios. Mas se eu não tiver dinheiro, eu não assistirei. É simples e fácil de entender quando se pensa com racionalidade.
A grande lição que o hyde me ensinou em meu aniversário é que por mais que confie nele, ele será sempre o cantor que dança e manda beijos amorosos para seus fãs de uma distância segura de alguns metros de seu palco infinito. Um artista que cumpre seu trabalho à risca.
Do homem por trás do artista eu não sei, mas certamente não sairia de seu trabalho para encontrar alguém em seu aniversário para, ao menos, fazê-la se sentir amada.
Viii, passe a acreditar em coincidências que tudo será diferente.
Viii, espere menos dos outros.
Viii, a situação é essa. Isso aí não tende a melhorar. Vai ser sempre assim, Você não precisa aceita-la.
Viii, procure um analista urgentemente.
Sem presentes amorosos e palpáveis, mas com uma lição de moral aprendida, voltei pro hostel, 120 reais mais pobre, para dormir e voltar para casa no dia seguinte.
É lógico que quando minha família perguntou se foi legal, eu respondi que foi.
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2 comments:
Really deep and long post.
Vii, happy -late- birthday!
And, you know, if L'Arc goes to Brazil... See you there!!
Thank you for commenting, Javier.
You're late for wishing me a happy birthday. Maybe next year. Who knows?
I doubt L'Arc will come to Brazil and, as explained in this post, I won't be putting any hopes on that anymore.
Meeting you seems as impossible as hyde materializing in front of me to wish me happy birthday.
Best wishes.
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